O Tamborzão

Nacionalizamos o funk. Deixamos de usar os loops de fora. Começamos a criar os nossos aqui. Acho que basicamente foi isso. O ritmo inclusive mudou bastante. O Tamborzão mudou o jeito de criar as músicas. Ficou mais suingado eu diria, mais dançante, mais sensual.

A bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel parou quando mestre André (José Pereira da Silva) caiu. Um ritmista — João Branco — começou a repicar ininterruptamente. O mestre levantou-se, o repique deu a entrada, e a bateria subiu.1 A Mocidade inventara a paradinha, que se incorporaria às evoluções de outras escolas nos anos 1960. Herdeiro de mestre André, mestre Jorjão conduziu a bateria da Unidos do Viradouro entre 1996 e 1998. Em seu segundo ano na escola de Niterói ele revigorou o breque com uma variante de uma célula do Volt Mix:2 “É a inovação, não é? Eu acho que a bateria, para se renovar, tem que inovar. Então vamos meter o funk”.3

Paradinha funk, Viradouro 1997

Paradinha funk de mestre Jorge de Oliveira para a Viradouro em 1997, transcrição de Lucas Ferrari

Dois anos depois, ele diria:

O samba, funk, como este ano aquele negócio do Villa-Lobos com a orquestra,4 tudo é a mesma coisa. É só se ensaiar, se combinar: tudo é a mesma coisa. Isso aqui é Brasil. No ano do funk lá na Viradouro, quando botei o funk na gravação, todo mundo foi contra.5 Naquele ano o funk estava sendo muito criticado pelas violências que existiam.6

Para criar, em 1998, a batida que viria a chamar-se Tamborzão, o DJ Luciano Oliveira, hoje MC Sabãozinho, de Campo Grande, não se inspirou em mestre Jorge de Oliveira, mas no “funk com instrumentos de escola de samba”7 do Funk’n Lata de Ivo Meirelles, da ala de compositores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.

A entrevista abaixo foi concedida a Tatiana Ivanovici pelos DJs Luciano Oliveira e Everton Cabide, provavelmente em outubro de 2006.8

DJ Luciano Oliveira — O lance do Tamborzão começou porque na época em que a gente tocava — não é Cabidão? — usava-se muito o Atabaque,9 uma batida feita de conga — tipo conga — que o pessoal associava muito ao ritmo que era o funk da época, o Volt Mix. Naturalmente, como todo o produtor sabe, a gente sempre tem uma necessidade de melhorar, de expandir, de criar sons novos. A R-8 — Ha! — foi a responsável por isso tudo que está aí, não é Cabide? (Mostra uma bateria eletrônica R-8 MK-II). Foi justamente numa R-8 dessas aí que foi criado o Tamborzão. Acredite se quiser. Foi até engraçado porque foi de madrugada — devia ser por volta de duas da manhã — e bateu uma inspiração louca por causa do Funk’n Lata. Porque o Funk’n Lata sempre teve um som pesadão.10 E lembro que começou-se a criar com frequência montagens com sons ao vivo, tirados do público, dos bailes: colocava-se o microfone e gravava-se os sons. Então falei: “poxa, por que é que a gente não tenta fazer uma batida meio que ao vivão também?” Pra crescer, pra dar uma sustentação ao som. Foi quando a gente começou a buscar elementos da bateria eletrônica. Começamos a juntar aquela imundícia toda ali pra ver se dava certo. Aí, foi até engraçado que, depois que concluí, que fechei a tampa, olhei pra ela assim, desliguei e falei: “isso tá uma porcaria!” Ha, ha, ha, ha! Ficou uma semana encostada. Uma semana encostada ali, a bateria, até que um belo dia… Eu tinha uma dupla de MCs que, inclusive, moram perto da minha casa até hoje. Aí, eles: “pô, Luciano, eu tô a fim de produzir um rap”. E eu inseri. Foi a primeira aparição do Tamborzão. Foi num rap do Tito e Xandão.11 E está registrado em CD, o Lugarino apresenta os melhores da Zona Oeste,12 gravado em 1998.

Inclusive, é bem interessante falar isso, o lance da data, porque a gente faz até uma aposta, não é, Cabide? Tenta achar um CD que tenha a primeira aparição gravada. Não vai ter. Foi realmente a primeira música gravada. E depois meu parceiro Cabidão bolado, inspirado (ha, ha, ha!), fez a “Montagem da Gota”, não é?

DJ Everton Cabide — E foi isso mesmo. Apesar de que você fez aquela vinheta lá, “Novos ritmos, novas galeras”. Com certeza, você fez aquele Tamborzão, o patrão Kokota escutou: “esse tambor… esse tambor que é o tambor do funk. Vamos mudar o funk”. Aí eu fiz uma “Montagem da Gota”, saiu,13 e as equipes de som já começaram a copiar.

Eu falei, “não, o Tambor é o Tambor da Zona Oeste, o Luciano criou”. Eu usei aquilo. O pessoal começou a me perguntar: “da onde é aquele Tamborzão?” “Aquele Tamborzão é o Tamborzão da Zona Oeste, feito pelo Luciano”. Foi o início do funk. Todo o mundo começou a copiar, a botar nas músicas, e a evolução começou a evoluir, evoluir, evoluir até chegar nesse Tamborzão de hoje.

DJ Luciano Oliveira — Porque aconteceu foi o seguinte. Quando o Tamborzão foi criado, a gente (no caso, eu), eu passei pra vários DJs, e aí, um vai passando pro outro. Quando o Cabide fez a “Montagem da Gota”, eu lembro bem, teve aquele impacto legal, todo o mundo gostou do som do Tamborzão e, naturalmente, começou a pedir. Foi passando pra um, pra outro, até que veio o festival de galeras lá do Coroado,14 lá da Cidade de Deus. Foi justamente onde batizaram a batida, no caso, de Tamborzão, porque não tinha nome ainda. Esse festival de galeras marcou muito porque foi de onde saíram os maiores nomes do funk hoje: Tati Quebra-Barraco, Bonde do Tigrão, Bonde do Vinho, vários MCs. E batizaram o Tamborzão. Então o nosso amigo Duda15 começou a produzir as montagens, talvez até a pedido dos próprios MCs. Eu não sei bem porque na época eu estava meio ausente. E começou realmente a mudar. Ainda assim, vinha associado ao Volt Mix. Até que o Tamborzão foi tomando conta, foi tomando conta, foi subindo de volume, vamos colocar assim, e hoje é o ritmo do funk. Quem esperava, não é? Eu não esperava. Esperava, Cabide?

DJ Everton Cabide — Esperava não. Os próprios MCs diziam assim: “Bota aquele Tamborzão, aquele Tamborzão neurótico, bota o Tamborzão!” Que a gente chamava mesmo de Batuque. Era o Batuque, não era o Tamborzão. Os MCs: “Bota aquele Tamborzão neurótico!” Aí pegou. Tá hoje, Tamborzão. O Tamborzão do funk.

(Corte)

DJ Luciano Oliveira — Não, acho que foi bem diferente do Volt Mix, porque antigamente os DJs usavam aquele atabaquezinho, era prática já, usar. Porque só o Volt Mix, só o Volt Mix… Hoje em dia, eles começaram a ter aquela coisa de agregar sons. Usava-se muito aquele atabaque. E o Tamborzão veio mais ou menos naquela linhagem do atabaque. Você vê que a base, tum-pá-pá-pum-pá,16 não mudou. Só foi agregando, foi só uns agregados. Comecei a baixar, a associar sons de… bastante tumba mesmo. Como é o nome daquele… não é surdão. Gente, esqueço o nome! Ah, vou lembrar o nome depois, que tá ali.17 Fui modificando alguns pitches também. Na hora da programação, mudei os pitches de alguns instrumentos, de alguns sons de percussão. E foi até engraçado porque, confesso, foi meio chutômetro. Fui, “pa-pa-pá”, e falei: “tá legal, tá bacana”, “não, tira isso aqui”, “acrescenta isso aqui agora”. E naquela junção ficou um lance bacana porque o som era estéreo. Atualmente, o Tamborzão ficou mono, por causa do costume, na época, de usar MD.18 Nós, DJs, usávamos aparelhos de MD porque, como o disquete era uma coisa cara, custava um dinheirinho, os aparelhos que a gente comprava, mais modernos, tinham o recurso de usar em mono, não é Cabide? Então pra aumentar o tempo do disquete os DJs começaram a criar aquele hábito de gravar tudo em mono. O Tamborzão foi passado de um pro outro. Como só se passava de MD para MD, não tinha o recurso do computador… Tu pode reparar que o som do Tamborzão hoje é mono, bem mono mesmo. Mas era estéreo. Então, poxa, a grande verdade é que nem eu nem Cabide nem ninguém sabia que o Tamborzão viria a ser o ritmo do funk carioca pro mundo.

DJ Everton Cabide — É, inclusive os bailes de comunidade hoje em dia, pô, toca o Tamborzão do início ao final!

DJ Luciano Oliveira — Do início ao fim.

DJ Everton Cabide — E é aquela batida o tempo todo.

DJ Luciano Oliveira — É do início ao fim, cara!

DJ Everton Cabide — E quando muda, ninguém dança. Nego quer escutar o Tamborzão do início ao fim do baile. No caso de o baile começar dez horas da noite, vai acabar seis horas!

DJ Luciano Oliveira — Chegou um estágio — é como o Cabide estava falando — que, pra mudar, agora, vai levar um tempinho mesmo. Porque o Tamborzão já está bem inserido, e as gerações antigamente levavam mais tempo pra mudar. Uma geração, hoje, uma criança que está com nove anos, daqui a três anos, com doze, treze anos, já está curtindo o funk há um bom tempo, desde os nove. E com treze já está começando a curtir o baile da sua comunidade. E agora, como é que faz? Aí, é complicado. Pra mudar a história do Tamborzão hoje, pra de repente vir a criar um elemento novo ou talvez um ritmo novo, acredito que vá levar mais uns dez aninhos aí. Ha, ha, ha!

DJ Everton Cabide — Dez aninhos…

(Corte)

Ele explodiu mesmo foi já em 2000. Em 2000 começaram todas as montagens. O pessoal: “enfia batuque”! O pessoal usava o Tamborzão que ele criou e acrescentava mais batidas, mais tambor em cima de Tamborzão. Mas a base mesmo é o Tamborzão que tá até hoje.

DJ Luciano Oliveira — Porque ele deixou de ser, deixou de estar ali pelo backstage pra ficar realmente de cara pro gol. O Tamborzão passou a ser o elemento principal mesmo, o ritmo do funk. Foi ali que aconteceu tudo. Acho que foi o ano 2001, por aí, 2000, que aboliu o Volt Mix e todo o mundo só queria o Tamborzão, o Tamborzão, o som do Tamborzão… E assim foi embora. Solta o Tamborzão, DJ!

Numa segunda-feira, 25 de junho de 2012, troquei algumas mensagens com o DJ Luciano.

Carlos Palombini — O Tamborzão que está no CD do DJ Lugarino é igual ao que passou a ser usado depois, com variações, no funk carioca?

DJ Luciano Oliveira — Sim, mas está junto ao Volt Mix. Foi a partir do Tamborzão que começou a mudança do funk carioca.

Carlos Palombini — Que mudanças ocorreram?

DJ Luciano Oliveira — Nacionalizamos o funk. Deixamos de usar os loops de fora. Começamos a criar os nossos aqui. Acho que basicamente foi isso. O ritmo inclusive mudou bastante. O Tamborzão mudou o jeito de criar as músicas. Ficou mais suingado eu diria, mais dançante, mais sensual.

Carlos Palombini — Você diz que inicialmente o Tamborzão se chamava Atabacão.

DJ Luciano Oliveira — O nome Tamborzão foi dado pelos MCs no festival da Cidade de Deus. A batida que fiz não tinha nome. Eles batizaram: “DJ, solta o Tamborzão!”

Carlos Palombini — Quando aconteceu esse festival?

DJ Luciano Oliveira — Se não me engano, em 1999. Em 1998 ou 1999.

Carlos Palombini — Você diz também que o sucesso do Tamborzão começou com uma produção do DJ Cabide, a montagem “A Gota”.

DJ Luciano Oliveira — Sim , foi a primeira musica a tocar na rádio,19 a mostrar de fato a batida, sem mixá-la com nada, pura, na cara. Nesse período, em 1998, 1999.

Carlos Palombini — Outro dia ouvi uma gravação do MC Mascote na Rua do Costinha, em Campos dos Goytacazes, três semanas após o falecimento do MC Claudinho, portanto no início de agosto de 2002. O DJ Flô usa ali diversas bases: Volt Mix, Atabaque, Tamborzão. Isso me levou a supor que tenha havido um período de transição, no qual o Tamborzão conviveu com outras batidas antes de substituí-las.

DJ Luciano Oliveira — Sim, só em 2001, com a musica “Tire a camisa”, do MC Cabo,20 o Tamborzão se fixou como a batida padrão do funk. Foi daí pra frente que os DJs, os produtores, passaram a usá-lo como batida principal.

Carlos Palombini — Tenho a impressão que, a partir de 2010, o Beatbox começou a substituir o Tamborzão.

DJ Luciano Oliveira — Sim , o processo foi acontecendo. Hoje, de fato, aquele Tamborzão já quase não se usa, mas tudo o que vier agora vem baseado nele.

Carlos Palombini — O Beatbox é uma espécie de imitação vocal do Tamborzão.

DJ Luciano Oliveira — Sim, tem a mesma levada, com poucas mudanças, claro.

Carlos Palombini — O Tamborzão estaria em relação semelhante com o Volt Mix? Isto é, criado a partir dele, mas com mudanças?

DJ Luciano Oliveira — Não, é bem diferente. Quando fiz não tive pretensão nenhuma de mudar o funk. Na verdade, fiz pra ser um complemento do Volt. Mas acho que ficou bom demais!

Carlos Palombini — Antes de você ninguém havia misturado ritmos e percussões brasileiras com o Volt Mix ou outras bases do Miami bass?

DJ Luciano Oliveira — Sim, mas nada significativo. Acabei criando uma batida completa, eu diria. Ainda que sem querer.

Carlos Palombini — Parece que os anos 1990 foram do Volt Mix e os anos 2000 do Tamborzão. Você prevê uma década de vida para o Beatbox?

DJ Luciano Oliveira — Não dá pra prever. Acho que está durando bastante. Mas acredito que algo novo virá pelas mãos de alguém. Sempre é assim: simplesmente, surge.

Carlos Palombini — Você recebe direitos de autor pelo uso do Tamborzão?

DJ Luciano Oliveira — Não, nada. Na época não éramos informados. Acabou ficando sem dono oficial.

Carlos Palombini — Alguém já disputou com você a paternidade do Tamborzão?

DJ Luciano Oliveira — Sim, claro: filho bonito, todos querem ser pai! Tentaram registrar, mas não conseguiram. Por fim, tiveram que expor a verdade. Todos sabem que fui o criador da levada: muitas testemunhas!

Carlos Palombini — Quem tentou?

DJ Luciano Oliveira — Já não cabe falar disso. Deixa quieto.

Na segunda-feira, 25 de novembro de 2013, a convite de Jones MFJay, participei do encontro de DJs no Bangu Atlético Clube, onde pude colher, com a colaboração de Lucas Ferrari, o depoimento do DJ Duda.

DJ Duda da CDD — O Luciano Sabãozinho! Ele fez a programação de bateria, o Tamborzão, pois não existia o loop, e produziu a primeira música com essa batida. Nem ele nem ninguém acreditava na ideia da batida. O DJ Cabide foi o primeiro a pegá-la e misturar com outros elementos, como o Volt Mix, e começou a criar algumas montagens da Gota com ela.21 O pessoal não abraçou muito. Os DJs não abraçaram. Como gostei do suingue, que tinha a ver comigo porque sou carioca, filho de baiano, e meu pai é português (a história do Brasil é esta pessoa aqui), simpatizei com a ideia da batida africanizada junto com os beats americanos e tudo o mais. Comecei a envolver, a misturar, e a dar voz à comunidade, à favela. Quando comecei a pegar as ideias, comecei a lapidar, mas sempre usando outros elementos.

Carlos Palombini — Em que ano?

DJ Duda da CDD — Em 1999, 2000… Em 2000 nós explodimos e nos tornamos o que foi: Bonde do Vinho, Bonde do Tigrão, Tati Quebra-Barraco, Os Carrascos, uma pancada de artistas. Todos esses caras, que são sucesso ainda e deram a volta ao mundo, saíram da minha mão e da minha ideia. A magia total vem do Luciano. Eu peguei esse produto maravilhoso, comecei a envolver em todas as programações de bateria, com as músicas que eu criava, dando voz à comunidade. Nasceram os maiores nomes do funk. Lá na minha comunidade, a Cidade de Deus, onde existe um clube carnavalesco chamado Coroados, naquele palco nasceram muitos dos maiores talentos do funk, e deu-se nome ao Tamborzão, hoje reconhecido como a batida eletrônica do Brasil para o mundo. Foi batizado por mim. A ideia começou a se implantar e hoje é o que é, Tamborzão em todo o tipo de música: na MPB, no samba, no axé music, até no sertanejo agora. A página que eu virei, minha contribuição ao funk, acho importante: eu acreditei. E fiz acontecer. Só não tive maldade. Fui roubado por todo o mundo. Também, não tinha experiência…

Carlos Palombini — Por quem você foi roubado?

DJ Duda da CDD — Ah, pelo Marlboro, pela Furacão, por quase todo o mundo aí. Todo o mundo usufruiu do funk. Todo o mundo que usufruiu dessa minha ideia, hoje está milionário, rico pra cacete, mas não se lembra de fazer assim: “pô, Duda, valeu pela sua parada”, “pô, Duda, obrigado pela sua contribuição”, “porra, bicho, era isso que eu queria”, “pô, a gente tava precisando desse upgrade aí no funk”. Foi o que aconteceu. Eu hoje sou magoado com as pessoas, embora não traga à tona. Mas se tiver que falar, eu falo mesmo, porque é a realidade. Está escrito, está filmado, está registrado. Não quero receber nada por isso. Acho que o que ganhei, de público, de respeito, já me enobrece demais. Eu sou muito feliz com isso.

A batida sem nome aparece pela primeira vez em 1998 numa gravação do “Rap do Comari”, produção do DJ Luciano para os MCs Tito e Xandão, lançada no CD Lugarino apresenta os melhores da Zona Oeste. No mesmo ano ou no seguinte, Luciano a utiliza na montagem “Novos ritmos, novas galeras”. Ela chama a atenção do proprietário da equipe A Gota, que vaticina: “vamos mudar o funk”. DJ da equipe, Cabide produz a montagem “A Gota”, com o “Batuque” de Luciano, que passa a integrar o CD O som das galeras, primeiro da série A Gota Cerol Fininho, em 1999. Na 102,1 Imprensa FM, onde também trabalha, Cabide propaga o “Tambor” da Zona Oeste pelo Rio de Janeiro. Com artistas como Tati Quebra-Barraco, Bonde do Tigrão, Deise Tigrona, Os Hawaianos, Bonde do Vinho, Jack e Chocolate, Pretos de Elite, Tentação do Funk, Carrascos, Os Saradinhos, Bonde Faz Gostoso e Vanessinha Pikachu, o DJ Duda organiza concursos de galeras locais na Cidade de Deus. A CDD emergente adota o “Batuque” e o batiza. No ano seguinte o Bonde do Tigrão participa do CD Tornado muito nervoso 2, da Furacão 2000, e leva “aquele Tamborzão neurótico” junto.22 De acordo com Luciano, contudo: “Só em 2001, com a música ‘Tire a camisa’, do MC Cabo, produção de Dennis DJ, o Tamborzão se fixou como a batida padrão do funk.” Um “Tamborzão puro”  cristalizou-se em dado instante (ver transcrição abaixo), mas nunca deixou de conviver com variantes, misturas, explosões, rajadas, rulos e floreios, como já acontecia, de resto, com o Volt Mix.

O Tamborzão do DJ Luciano Oliveira (1998), de Bangu, transcrito por Lucas Ferrari e Guillermo Caceres em outubro de 2013

De baixo para cima, o bumbo, os tom-tons e as congas do Tamborzão puro transcritos por Lucas Ferrari com a colaboração de Guillermo Caceres

Em junho de 2013, numa entrevista concedida ao blog Funk de Raiz, o DJ Marcelo André observou:

Quando eu falo estas coisas a galera da antiga fica até preocupada, mas o “Pretty” Tony gosta do Tamborzão. A Trinere falou que tem vontade de gravar “I Know You Love Me” no Tamborzão a última vez que veio aqui. Eu mandei uns cinco tambores diferentes que faziam sucesso no momento, e o MC Leonardo mandou mais uns vinte pro filho dela. O Tamborzão é uma música dançante, na verdade, um loop de três segundos. E aquilo vai embora, só aquele loop, sem virada, sem nada. Deu certo porque é dançante. O Tamborzão tem a nossa cara, mas se você for lá atrás, a “Melô da macumba”23 tem um tambor, a “Melô da explosão”24 também. Era uma coisa leve, não tão pesada e dançante quanto o nosso, mas já tinha o tambor. O que o Sabãozinho fez foi criar uma batida nossa, e todo o mundo no funk copiou.25

 

Nota

As transcrições de entrevistas e depoimentos, orais ou escritos, constituem não reproduções, mas simulacros de discursos. Elas seguem procedimentos análogos àqueles pelos quais o funk carioca processa os materiais de que se apropria, procedimentos inerentes tanto à reprodutibilidade técnica quanto à escrita.26

 


1 De acordo com o relato, por mestre Jorjão (Jorge de Oliveira), de uma lenda urbana cujas diferentes versões fazem parte da história oral do Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel; no documentário de Paulo Tiefenthaler, Jorjão, Rio de Janeiro, Synapse Produções, 2004. Devo a Spirito Santo a indicação do filme.

2 O termo “Volt Mix” designa tanto a segunda faixa do lado B, “808 Beatapella Mix”, do single de 12 polegadas 8 Volt Mix, do DJ Battery Brain, codinome de Mark Rogers (Los Angeles, Techno Hop Records, THR–20, 1988), quanto o loop extraído de alguns de seus compassos iniciais. Ambos serviram de base rítmica para grande parte da música funk carioca nos anos 1990.

3 Jorge de Oliveira, em 1997, a um jornalista na Marquês de Sapucaí; no documentário de Tiefenthaler, op. cit.

4 De volta à Mocidade (onde estivera como mestre de bateria entre 1988 e 1994), no enredo “Villa-Lobos e a apoteose brasileira”, em 1999.

5 Dominguinhos do Estácio e Bateria do G.R.E.S. Unidos do Viradouro, “Trevas! Luz! A explosão do universo”, samba de Dominguinhos do Estácio, Mocotó, Flavinho Machado e Heraldo Faria, em Sambas de enredo: carnaval 97 grupo especial (Brasil, Gravadora Escola de Samba Ltda., selo RCA, distribuição BMG Brasil Ltda., 7432144033–2, 1996).

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Alô, Niterói!
Alô, São Gonçalo!
Olha a Viradouro chegando!
Vamos lá, mestre Jorjão!
Hep!

Vou cair na gandaia com a minha bateria, no balanço da mulata, a explosão de alegria.
Vou cair na gandaia com a minha bateria, no balanço da mulata, a explosão de alegria.

E ela vem…
Vai!

Lá vem a Viradouro aí, meu amor, é Big-Bang, coisa igual eu nunca vi, que esplendor!
Lá vem a Viradouro aí, meu amor, é Big-Bang, coisa igual eu nunca vi, que esplendor!

E vem das trevas…

Vem das trevas, tudo pode acontecer, a noite vira dia, luz de um novo amanhecer!

Vai meu verso!

Vai, meu verso, buscar a Terra em embrião, da poeira do universo desabrocha a natureza em expansão.

Oh, mãe!

Oh, mãe Iemanjá, deusa das águas, Nanã, deixa o solo se banhar!

Ora, ieiê!

Ora, ieiê, ôi, mamãe Oxum, vem com ondinas brincar!

E de novo!

Ora, ieiê, ôi, mamãe Oxum, vem com ondinas reinar!

E no fogo…

No fogo a salamandra a dançar, as pombas brancas simbolizando o ar:
Explodem as maravilhas, vejo a vida brilhando afinal!

E surge…

Surge o homem iluminado com hinos de luta e cantos de paz: é o equilíbrio entre o bem e o mal.
E com o coração nessa folia, seja noite ou seja dia, amor, eu quero é me acabar!

Vou cair na gandaia com a minha bateria, no balanço da mulata, a explosão de alegria.
Vou cair na gandaia com a minha bateria, no balanço da mulata, a explosão de alegria.

E ela vem!

O vídeo provavelmente corresponda ao desfile das vencedoras do grupo especial.

“À primeira vista parece o samba do crioulo doido; mas não é”, afirmou o então vice-diretor do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, João Steiner, em artigo na Superinteressante (v. 11, n. 5, p. 77, maio de 1997), “Big Bang com plumas e paetês”.

6 Mestre Jorjão, no documentário de Tiefenthaler, op. cit.

7 Ivo Meirelles, em entrevista a Monique Evans, no programa De Noite na Cama, do canal Shopping Time (“a única loja erótica da TV Brasileira”), da Globosat, em 1998.

8 Nem Cabide nem Luciano souberam precisar-lhe a data. De acordo com Ivanovici (mensagem de 18 fev. 2014), ela foi realizada no estúdio do DJ Cabide, no Jardim Catarina, em São Gonçalo, no final de 2006, na mesma época do documentário “Tamborzão”. Este, por sua vez, foi postado em 19 de outubro de 2006 no canal Ivanovici sob o título “Tamborzão por Tatiana Ivanovici e Diogo Cunha”, e, com legendas em inglês, em 15 de janeiro de 2007, no canal Carioca Funk Clube, sob o título “Tamborzão baile funk beats”.

9 O nome “Atabaque” pode designar diferentes bases. No vídeo, quando o DJ Luciano se refere a “o Atabaque, uma batida feita de conga”, e depois afirma, “usava-se muito aquele atabaque”, e “o Tamborzão veio mais ou menos naquela linhagem do atabaque”, ouve-se esta batida (0:23–30, 5:01–05 e 5:12–16):

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De acordo com mensagem de Luciano (em 3 de janeiro de 2014), “não era esse, era bem mais simples.” Sugeri então a base “atabaque menino sofredor” (do rap do MC Mascote), também conhecida por “atabaque rasta” ou “atabaque rasteiro”.

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“Isso aí, tipo esse,” Luciano respondeu (3 de janeiro de 2014).

10 Com o rapper luso-moçambicano General D, o Funk’n Lata participava de “Sobi esse pano, mano”, divulgado na coletânea Onda sonora: Red Hot + Lisbon (Portugal, Movieplay Portuguesa, MOV30.375, 1998). Com Ivo Meirelles, o Funk’n Lata lançava o álbum O coro tá comendo, terceiro disco de Meirelles e o primeiro com o Funk’n Lata (São Paulo, Paradoxx Music, 1508008-1, 1998), e o EP promocional correspondente, O coro tá comendo / Boquete (São Paulo, Paradoxx Music, Copox 25/98, 1998), além de participar da faixa “Voa canarinho”, de Meirelles, na coletânea Agita Brasil (Brasil, Sony, Epic 981.514/2–490155, 1998).

11 Os MCs Tito e Xandão haviam registrado o rap “Amor sincero” no LP Hollywood discotheque vol. 8: a ciência do som, gravado e mixado pelos DJs Grandmaster Raphael e Nazz em 1995 (Rio de Janeiro, Vinil Press, LPVP5042).

Hollywood discotheque vol. 8: a ciência do som,1995Hollywood Discotheque: a ciência do som, vol. 8, 1995 (contracapa)

Hollywood Discotheque vol. 8: a ciência do som, 1995, lado AHollywood Discotheque vol. 8: a ciência do som, 1995, lado B

As imagens e o LP se encontram no 4shared de DJ DAYDANIC D.

12 DJ Lugarino, da Vila Kennedy. O nome do CD aparece como DJ Lugarino apresenta as melhores da Zona Oeste no texto “Tamborzão: conheça a origem do ritmo que comanda o funk”, de Tatiana Ivanovici (portal Do Lado de Cá, 1° de outubro de 2010).

13 DJ Everton Cabide, “A Gota”, segunda faixa do CD A Gota Cerol Fininho vol. 1: o som das galeras, Rio de Janeiro, equipe A Gota Cerol Fininho, 1999.

A listagem das faixas foi extraída do blog Baú do Funk. O CD completo encontra-se em três contas do 4shared: DJ Raphael E. (DJ Raphael Equipe Pesadelo), Breno W D. (Breno W da Cruz Santos) e junior_ffs1.

14 Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Coroado de Jacarepaguá.

15 Eduardo Silva, o DJ Duda, da CDD.

16 O beatboxing de Luciano Oliveira traduz (ver transcrição completa ao final da postagem): “tum”, a primeira batida do bumbo; “pa-pá”, as duas batidas slap da conga aguda; “pum”, a terceira batida dos tom-tons; e “pá”, a primeira batida da conga grave, apoiada pelo surdo de chão da bateria (ou tom-tom mais grave). É o que se poderia denominar, por paráfrase do termo de Heinrich Schenker, Ursatz do Tamborzão, na voz do autor.

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Ursatz do Tamborzão de acordo com o beatboxing do DJ Luciano Oliveira

No contexto de uma comparação com o Volt Mix, o DJ Sany Pitbull fornece uma versão ligeiramente diferente (em entrevista de outubro de 2006 a Tatiana Ivanovici).

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Ursatz do Tamborzão segundo Sany Pitbull, 2006

Este segundo Ursatz compreende: “pum”, a primeira batida do bumbo; “pa-pá”, as duas batidas slap da conga aguda; “pum”, a terceira batida dos tom-tons; “pum”, a terceira batida do bumbo; e “pá”, a primeira batida da conga grave, apoiada pelo surdo de chão da bateria (ou tom-tom mais grave). Note-se que o depoimento do DJ Sany, abaixo, contém equívocos: o DJ Luciano Oliveira não é “de Bangu” (2:39–46), mas de Campo Grande, conforme mensagem do próprio DJ (em 9 de janeiro de 2014); o Tamborzão não foi construído numa TR-808 (2:52–56), mas numa R-8 MK-II, conforme a entrevista dos DJs Luciano e Cabide, acima (nota 8).

17 Guillermo Caceres identificou esses sons. São eles, no grave, ambo kick, o bumbo com ambiência (ressonância); no médio grave, attack tom 2, o tom-tom grave da bateria, e attack tom 1, o surdo de chão da bateria (ou tom-tom mais grave ainda); e, no médio agudo, slap high conga, a conga aguda em slap, e open low conga, a conga grave aberta.

18 Minidisc.

19 Conforme relato do próprio DJ em seu site (“Como tudo começou”, 2005), Everton Cabide entrou na equipe A Gota como locutor do programa O Som dos Bailes, produzido pelo DJ Grandmaster Raphael (Angelo Raphael) para a Rádio Imprensa FM. Ao perceber a habilidade de Cabide, Grandmaster criou para ele A Hora da Montagem ao Vivo, às quintas-feiras no programa, e passou a anunciá-lo, a partir de 1995, como “o número um do sampler do Rio de Janeiro”. Sob o título “Sequência A Gota – rádio Imprensa FM – anos 90”, encontra-se no Youtube o que provavelmente corresponda a uma das emissões do DJ, incluindo a montagem “A Gota”.

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20 “Tire a camisa”, do MC Cabo, apareceu na Alemanha pelo selo Essay Recordings em junho de 2004, de acordo com informação de Daniel Haaksman, coproprietário do selo (em mensagem de 15 de outubro de 2013), como décima sexta faixa do CD Rio Baile Funk: Favela Booty Beats (AY CD 03), em produção de Dennis DJ. Segundo Luciano (em mensagem de 7 de outubro de 2013), é a versão original. Haaksman coletou-a no Rio de Janeiro entre o final de 2003 e o início de 2004. “Pra mim é uma das melhores músicas de todos os tempos, e sempre funciona nos clubes”, ele afirma (em mensagem de 6 de fevereiro de 2014).

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Rio Baile Funk: Favela Booty Beats, Man Records, 2005

21 “Grito A Gota”, outra montagem do DJ Everton Cabide.

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22 Por exemplo, em “Cerol na mão” e “Thu Thuca” (sic), terceira e décima sétima faixas do disco Furacão 2000: Tornado muito nervoso 2, produção de Dennis DJ, Rio de Janeiro, House Funk Produções Artísticas, 110204, 2000.

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Furacão 2000: Tornado muito nervoso 2, 2000, capa

Furacão 2000, Tornado muito nervoso 2, contracapa, 2000

23 William DJ associa o nome “Melô da macumba” a duas gravações: “Light Years Away”, do Warp 9 (Nova York, Prism Records, PDS 460, 1983) e “Hey Vikki / This Jam”, do Raw Dog (Miami, Marz Records, 1991). O DJ Marcelo André refere-se à versão dub da primeira (conforme mensagem de 4 de fevereiro de 2014). Encabeçado pelos produtores Lotti Golden e Richard Scher, com Boe Brown (anteriormente do Strikers) e Chuck Wansley (anteriormente do Charades) no papel de vocalistas-percussionistas, Ada Dwyer nos vocais e o DJ John “Jellybean” Benitez, o Warp 9 foi um dos grupos de electro nova-iorquino mais interessantes. Benitez nasceu no Bronx e foi para Manhattan estudar as técnicas do DJ Walter Gibbons (famoso por suas produções musicais para o selo Salsoul) antes de tornar-se internacionalmente conhecido por seu trabalho nos primeiros hits de Madonna. Ao citá-lo, Marcelo André estabelece, de modo tácito e surpreendente, uma conexão entre o loop do DJ Luciano e o soul da Filadélfia através de sua versão latinizada, “com congas”: a música da Salsoul.

Warp 9, “Light Years Away”, 1983Warp 9, “Light Years Away”, selo, lado AWarp 9, “Light Years Away”, selo, lado B

24 William DJ atribui o nome “Melô da explosão” também a duas produções: “Don’t Stop the Rock”, do Freestyle (Miami, Music Specialists, MSI-111, 1985), e “Situation Hot”, de The Arabian Prince and the Sheiks (Hollywood, Street Kut Records, SKR-1501, e Macola Record Co., MRC-0944, 1986). O DJ Marcelo André refere-se certamente ao single do Freestyle, como, no mesmo parágrafo, a citação de “Pretty” Tony Butler confirma.

Freestyle, “Don’t Stop the Rock”, front coverFreestyle, “Don’t Stop the Rock”, back coverbackcover

Freestyle, “Don’t Stop the Rock”, lado AFreestyle, “Don’t Stop the Rock”, lado B

25 DJ Marcelo André e Claudia Duarcha, “Entrevista: DJ Marcelo André”, Funk de Raiz, 23 de maio de 2013.

26 Sobre a reprodução mecânica como simulacro, ver Pierre Schaeffer, Ensaio sobre o rádio e o cinema: estética e técnica das artes-relé, 1941–1942 (Belo Horizonte, UFMG, 2010).

 

FOTO: Muleks 100 Limites, em ensaio na Mangueira, Rio de Janeiro, terça-feira, 19 de dezembro de 2006. © Vincent Rosenblatt / Agência Olhares