Grandmaster Raphael

A partir de 1988, 1989 começou essa coisa de fazer o funk, o nosso funk. E eu sou um dos responsáveis, que começou isso, junto com o Marlboro, que também estava nessa coisa de fazer funk em português. Ele tinha lá o movimento de uma maneira, e eu fazia de uma outra maneira.

Às 15:30 de sábado, 25 de janeiro de 2014, Jones MFJay1 vai apanhar-me na estação Colégio do metrô para irmos à Vila Valqueire, onde reside Angelo Antônio Raphael, o DJ Grandmaster Raphael, que nos recebe em seu estúdio.

Jones MFJay — Então é o seguinte, vou fazer a apresentação. Pá! Grandmaster, cara relikia; pô, um dos fundadores dessa parada que tá aí. E agora é tudo contigo. Vê como começou.

Carlos Palombini — Eu preparei treze perguntas. Não sei quanto tempo você tem.

Grandmaster Raphael — Não, tranquilo!

Carlos Palombini — Se tiver pouco, você responde mais rapidamente.

Grandmaster Raphael — Hoje é dia de festa, dia de baile: eu tenho o Circo Voador, lá na Lapa.

Jones MFJay — O que é lá hoje? Um baile funk?

Grandmaster Raphael — É, um baile funk.

Jones MFJay — Beleza, como é isso?

Grandmaster Raphael — Chego lá cedo pra arrumar tudo. Hoje tem a Valesca, hoje tem a Sabrina, hoje tem o Pixote.

Jones MFJay — Conseguiram pegar a Valesca?

Grandmaster Raphael — Hoje tem… quem mais?

Jones MFJay — Pô, o Pixote ainda aguenta cantar?

Grandmaster Raphael — Aguenta!

Carlos Palombini — É o Eu Amo Baile Funk?2

Grandmaster Raphael — É!

Jones MFJay — Já leva logo ele lá.

Grandmaster Raphael — Ué, é só marcar, pô, tô lá!

Jones MFJay — Ele tá aqui no Rio pra ver.

Grandmaster Raphael — Viaja quando?

Carlos Palombini — Viajo amanhã.

Grandmaster Raphael — Então dá tempo, a gente combina.

Jones MFJay — Vai ver essa parada aí pá tu conhecer.

Carlos Palombini — Que horas é?

Grandmaster Raphael — Começa de verdade onze horas, fica bom lá pela uma, mas eu tenho que chegar às nove. Fico lá de nove horas da noite às seis da manhã!

Jones MFJay — Não tem como falar com o Matheus,3 botar o nomezinho dele?

Grandmaster Raphael — Já pego o nome dele aqui, todinho, deixo na porta, explico como entra: por trás, ou então pela frente, onde há uma lista.

Jones MFJay — Este é um grande defensor, intelectual e defensor do funk.

Grandmaster Raphael — É muito legal aquilo lá, muito legal!

 

Eu Amo Baile Funk, Circo Voador, 25 de janeiro de 2014

 

Carlos Palombini — Então vamos começar.

Grandmaster Raphael — Vamos lá.

Carlos Palombini — A primeira pergunta: eu queria pedir a você que falasse um pouco de sua biografia. A segunda é carreira. Se você quiser juntar as duas…

Jones MFJay — Ah, isso é importante!

Grandmaster Raphael — Vamo embora.

Jones MFJay — Como que tu começou.4

Grandmaster Raphael — Já tenho mais de trinta anos de profissão. Comecei bem novo porque sempre gostei. Desde criança5 gostava de ficar nas portas dos bailes de soul das equipes de som. Naquela época não era funk, era soul: James Brown, essas coisas. Eu adorava isso! Adorava, não, adoro. (Bipe duplo de rádio) É o Mano,6 deve ser pra entregar meus CDs.

Mano Music — (Pelo rádio) Alô, som!

Grandmaster Raphael — Tenho que pegar hoje os CDs. (Levanta-se)

Mano Music — (Pelo rádio) Diz!

Grandmaster Raphael — Porque vou ao baile. (Pega a chave do portão e se dirige à porta) É o Mano.

Jones MFJay — Ah, o Mano tá aí? É bom que eu já levo um. Ele também. Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha! Carioca é o pika, né? É, é, vou pedir, pô, foda-se!

Carlos Palombini — Ha, ha, ha! É o CD de que? Do baile dele?

Jones MFJay — Isso aí é pá tu, é bom, ué.

Carlos Palombini — Claro que é. (Irônico) Comprei CD do Naldo.

Jones MFJay — Comprou?

Carlos Palombini — (Tira dois CDs de um saco plástico) Dois CDs do Naldo. Ho, ho, ho, ho!

Jones MFJay — Pô, CD do Naldo, aquilo é funk pasteurizado.

Carlos Palombini — Eu sei!

Jones MFJay — Já domesticado pro branco falar “aí é legal!”

Carlos Palombini — Eu sei disso.

Jones MFay — Não curto não.

Carlos Palombini — Não?

Jones MFJay — Não, eu acho que o bagulho tem que ser é na raiz!

Carlos Palombini — Também acho.

Jones MFay — Eu vou beber água em São Paulo se a fonte é aqui? Vou beber? Não é?

Grandmaster Raphael — (Conversa com Mano do lado de fora) Eu acho que soltaram os cabos da MK-II.

Mano Music — Tem que colocar.

Grandmaster Raphael — Ficou mal feito e ficou falhando. Vê lá, que se falhar é problema, né.

Jones MFJay — É, sábado é dia de correria. Mas podia aproveitar, se tu vier, temos muita coisa boa!

Grandmaster Raphael — (Dentro do estúdio) É o Mano que tá aí, Jones.

Jones MFJay — Esse aí é um pika, o Mano. (A Mano, que entra com um saco plástico cheio de CDs e o deposita sobre uma caixa de som no console) E aí, cara?

Mano Music — Tudo bem, Jones? (A Carlos) Tudo bem, você?

Jones MFJay — Um dos responsáveis pela proliferação do funk. Só que agora virou oficial. Ha, ha, ha, ha!

Grandmaster Raphael — He, he, he, he, he!

Jones MFJay — Mas isso aí ajudou muito a divulgar o funk. (A Mano) Esse mano é professor da Universidade Federal, tem uma cadeira lá: cara pika das galáxias, e tá aqui no Rio entrevistando, que ele tá escrevendo um livro sobre funk. (A Carlos) Esse Mano aqui, sabe aquele divulgador? A Três por Cinco Music?

Grandmaster Raphael — (Abafado) Hum, hum, hum, hum, hum! (Forte, enquanto entrega um CD a Jones) Tá aí. Na realidade as novas são a primeira e a segunda.7

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MC Sabrina da Provi, morro da Providência, 2013

MC Sabrina da Provi no morro da Providência, Zona Portuária do Rio de Janeiro, foto do Facebook da MC

Jones MFJay — Sabrina!

Grandmaster Raphael — A três e a quatro são antigas.

Jones MFJay — Demorô, demorô!

Grandmaster Raphael — As de trabalho, que estou pedindo pra espalhar, são a um e a dois. (Menos forte) As outras duas são mais antigas.

Jones MFJay — Tu viu como é que é? Quem não… Como é aquele ditado? “Quem não pede não…” Qual o ditado que fala aqui no Rio?

Carlos Palombini — “Quem não chora não mama”.

Grandmaster Raphael — Isso é uma marchinha de carnaval!

Jones MFJay — (Cantarola) “Quem não chora não mama…” Isso!

Grandmaster Raphael — Mas vamos lá. Onde parei, Carlos?

Carlos Palombini — Você parou falando do começo.

Grandmaster Raphael — Isso. Mais de trinta anos, e essa coisa que falei do baile soul, eu sempre me interessei. A partir daí comecei a querer entrar nesse mundo: montei meu próprio sonzinho, fui fazendo festinha, até começar a entrar em equipe de som, essa coisa toda. Fiz também programa de rádio muitos anos. São muitos anos de carreira. E trabalhei em várias equipes de som, várias rádios.

Jones MFJay — Mas o teu grande must, a diferenciação do Raphael, pra ter virado Grandmaster?

Carlos Palombini — Era a terceira pergunta: sua contribuição ao funk.

Grandmaster Raphael — Ah! Vou te falar, vou te ser sincero.

Jones MFJay — Como se deu o Raphael, e em que momento o Raphael perdeu pro Grandmaster, virou Grandmaster Raphael? É isso que ele quer saber, entendeu?

Grandmaster Raphael — O negócio é o seguinte: a realidade é que… (procura as palavras) eu sou um dos caras que começou realmente o movimento de funk cantado em português. Porque funk é uma música de origem americana. O funk é americano. Até mais ou menos 1988, 1989 a gente só tocava vinil, vinil importado, que na sua grande maioria vinha realmente dos Estados Unidos. Alguma coisa vinha da Inglaterra, alguma coisa da Alemanha, mas noventa e nove por cento vinha dos Estados Unidos. O funk realmente é música de origem americana. A partir de 1988, 1989 começou essa coisa de fazer o funk, o nosso funk. E eu sou um dos responsáveis, que começou isso, junto com o Marlboro, que também estava nessa coisa de fazer funk em português.

Jones MFJay — Só que você estava na Furacão.

Grandmaster Raphael — Ele tinha lá o movimento de uma maneira, e eu fazia de uma outra maneira.8 Eu trabalhava na Furacão e também tinha o espaço de executar as músicas na rádio, porque a Furacão tinha um programa e eu era o responsável. Isso facilitou bastante porque eu podia fazer as minhas coisas e tinha lugar (rindo) onde tocar, não é?

Jones MFJay — E aquela, cara, que é “tu-tu-tu”? Aquela primeira, que foi o divisor de águas?

Grandmaster Raphael — Qual?

Jones MFJay — Foi quando começou o sampler. Qual era o nome daquela música?

Grandmaster Raphael — A que começou o sampler? É difícil identificar.

Jones MFJay — Um dia desses eu vi num documentário, mano, a tua primeira que foi sampleado.

Grandmaster Raphael — Isso é difícil identificar porque o sampler é uma coisa que já havia sido…

Mano Music — Desde a primeira música já era sampleado. Quando veio os mixers com sampler, que o pessoal começou a mudar a batida, em vez de fazer na bateria eletrônica, era uma batida sampleada.

Grandmaster Raphael — Até uma produção americana, a partir de 1985, quando começou a vir mais coisas de Miami que do resto dos Estados Unidos: o pessoal de Miami começou a fazer uma coisa mais de sampler mesmo, uma batida de bateria eletrônica com samples de música cuja origem às vezes não era nem funk, mas outros gêneros. Como o Shy D, que usou um pedacinho daquela música do Henry Mancini, “A pantera cor de rosa”. Começou a vir coisa desse tipo, o que se faz hoje aqui. A gente sampleia de tudo: sampleia forró, samba, não tem limite!

Carlos Palombini — Você falou nessa passagem, quando o funk começou a ser cantado em português. A história tem sido contada do ponto de vista do Marlboro, do Marlboro e do Hermano Vianna, que contam juntos: teria começado com o LP do Marlboro. Havia algo antes?

Grandmaster Raphael — Sempre houve, sempre teve gente fazendo alguma coisa. Ele mesmo fazia, eu fazia, outros DJs faziam. Mas era aquela coisa que não tinha grande divulgação porque não tinha quem apostasse. Hoje em dia é muito fácil: eu faço uma música aqui agora, vou botar na Internet e vou mandar pra mil DJs. Naquela época não: você necessitava da gravadora pra fazer o vinil e divulgar. E isso não é uma tarefa fácil. Principalmente num gênero que estava começando e ninguém sabia o que poderia acontecer, no que iria dar. Já havia essa produção local, gente fazendo. A questão do Marlboro e do Funk Brasil é que ele conseguiu esse canal: ter uma gravadora.

Mano Music — Uma gravadora grande.

Grandmaster Raphael — E nisso eu diria que foi o primeiro, só que (rindo), logo em seguida…

Carlos Palombini — Veio você!

Grandmaster Raphael — Exatamente, com o Super quente, junto com Tony Minister.

Grandmaster Raphael, LP Equipe Super Quente, 1989Super quente, contracapa, 1989

Super Quente, selo, lado ASuper Quente, selo, lado B

Mano Music — Acho que foi mais ou menos na mesma época, porque tocava as mesmas músicas junto.

Grandmaster Raphael — Na mesma época, é questão de meses! Conseguimos fazer, eu junto com outro DJ — o cara que trazia disco lá de fora, o Tony Minister (Funk Gil) — fizemos um Super quente que acabou virando um marco, porque a gente usou mais sampler, coisa de soul, coisa de raiz mesmo, outro tipo de produção. E foi muito comentado na época, virou um sucesso muito grande. (O telefone toca insistentemente)

Carlos Palombini — Você quer atender?

Grandmaster Raphael — Não, pode deixar, eu atendo depois, se não vai atrapalhar aqui.

Carlos Palombini — Qual o motivo do predomínio do Volt Mix durante toda a primeira década?

Grandmaster Raphael — Isso é simples de explicar. Volt Mix é uma batida, um track produzido por um DJ de Los Angeles, uma montagem, assim como as que a gente faz hoje. Uns chamam de colagem, que é pegar vários trechos de várias músicas e colar em cima de uma batida. Nesse vinil do DJ Battery Brain, um lado vinha essa montagem, essa colagem, e do outro só a batida, como se fosse um instrumental do trabalho. Então os MCs do Rio de Janeiro, nos festivais de galera, pediam essa batida pra cantar em cima porque era uma batida lisa, uma batida possante. Bem feita e lisa: não tinha nada interferindo. Colocar a voz em cima era simples. E os próprios DJs passaram a adotá-la pra fazer essas montagens, colocar sample em cima ou fazer produção de rap, essa coisa toda. Porque isso é uma base produzida por um cara, um DJ de Los Angeles.

Carlos Palombini — Você concordaria que o predomínio foi do Volt Mix nos anos 1990, do Tamborzão nos anos 2000, e do Beatbox nos anos 2010?

Grandmaster Raphael — O Beatbox e o Tamborzão vejo como uma coisa só. Fica uma mistura. Porque o Tamborzão ninguém consegue definir. É uma mistura de tudo: tem samba com candomblé com… É um negócio meio complicado. E o Beatbox a mesma coisa. Eu acho que o Volt Mix não chega a durar os 1990 todos não, acho que na década de 1990 já começa a mudar. Porque o Volt Mix começa mesmo na década de 1980, até porque o disco é da década de 1980. Se não me engano o Volt Mix é de 1986.

Carlos Palombini — 1988.

Mano Music — 1988.

Grandmaster Raphael — Acredito que não, hein…

Mano Music — Acho que sim.

Grandmaster Raphael — Acredito que seja menos.

Carlos Palombini — É 1988.

Grandmaster Raphael — 87… 86…

Jones MFJay — O cara tá pesquisando já essa porra há um tempão.

Carlos Palombini — Eu acho que é 1988. Não tenho certeza, mas acho que é.

Grandmaster Raphael — Depois vou verificar porque tenho quase certeza que é mais antigo.

Mano Music — E foi com esse negócio aí que veio o mixer com sampler, que o pessoal começou a fazer a música em cima do Volt Mix.

Carlos Palombini — E o Tamborzão, como surgiu?

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Grandmaster Raphael — O Tamborzão surge de uma mistura de vários samples de percussão. A partir de determinado momento, já na década de 1990 mesmo, começou-se a colocar percussão em cima do Volt Mix: atabaque tirado de discos de produção nacional. Tem um disco de bateria de samba, Alma brasileira; um disco se eu não me engano do próprio Afroreggae com essas percussões. Começou-se a misturar essas percussões com o Volt Mix. Com o tempo o Volt Mix foi sendo abolido e ficamos só com a percussão. E aí, mistura daqui, pega de lá…

Jones MFJay — Saiu lá da Furacão, as primeiras músicas.

Grandmaster Raphael — Acredito que não.

Carlos Palombini — Quem inventou o Tamborzão?

Grandmaster Raphael — Eu acho que não tem inventor. Acho que tem uma colaboração de vários DJs fazendo uma coisa: eu faço uma coisa aqui, você pega a minha coisa e faz uma adaptação, aí ele pega, já bota outro tempero, e vai copiando, vai copiando, vai adaptando, vai equalizando diferente, quando vê, de um só, virou mil. Acho que é algo mais ou menos assim.

Jones MFJay — Ninguém inventou!

Grandmaster Raphael — É!

Carlos Palombini — É coletivo.

Grandmaster Raphael — Foi surgindo da intuição dos DJs.

Carlos Palombini — Como foi essa passagem do Tamborzão para o Beatbox?

Grandmaster Raphael — Acredito que não tenha sido uma passagem, acho que andam junto, estão sempre em sintonia. O primeiro Beatbox utilizado em larga escala de produção — digamos assim — foi o do Catra, que é o mais tradicional. O pessoal começou a usar no baile do Jacaré e foi proliferando, as outras pessoas foram fazendo, pegando esse mesmo, acrescentando elementos, modificando.

Carlos Palombini — Como é esse Beatbox?

Grandmaster Raphael — É aquele primeiro:

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Isso.

Jones MFJay —  É isso mesmo, caralho!

Grandmaster Raphael — Começa uma febre no Jacaré! E como é que espalha pra não sei onde? Espalha e, quando vê, tá todo o mundo usando. E o dele — modifica a afinação, modifica a equalização, modifica uma coisa aqui — vira centenas, porque todo o mundo vai modificando.

Mano Music — A pessoa que não entende acha que é outro.

Grandmaster Raphael — A origem é sempre a mesma.

Carlos Palombini — Nessas três décadas que trabalhos marcaram o funk?

Grandmaster Raphael — Essa é a pergunta mais difícil! Porque o funk, pra gente que trabalha, que vive dele diariamente, é complicado: existe um volume de coisas acontecendo.

Carlos Palombini — De acordo com seu gosto pessoal, o que você consideraria as “obras-primas”?

Grandmaster Raphael — Puta merda! Aí é pior ainda.

Jones MFJay — Não, tu tem!

Grandmaster Raphael — Não, não tenho. Eu não tenho. Se eu trato de obra-prima no funk sempre prefiro falar da gringa, porque fico meio isento. Faço minhas produções, tenho amigos que fazem, fica ruim.

Carlos Palombini — É a pergunta que ninguém gosta de responder.

Grandmaster Raphael — Como vou falar, “foi a tal”, se estou respondendo assim porque eu mesmo produzi? É um negócio meio complicado.

Carlos Palombini — Então fale das suas: quais você considera as mais importantes?

Grandmaster Raphael — Ah, que eu gosto? Mais importante é complicado, mas que eu gosto, vou te falar de um disco. Já fiz, caraca, se bobear, pra mais de cem discos. Sério mesmo! Um disco que eu gosto, mais recente. Vou falar um antigo e um recente. O antigo, Beats, funks e raps, é um que bateu record de vendas na época no Rio. Se não me engano deve ser de 1990 ou 1991. Ou 1989…

Mano Music — 1994, 1995.

Grandmaster Raphael — De maneira nenhuma, impossível!

Mano Music — Na época do nosso estúdio.

Grandmaster Raphael — Não, não é, cara.

Mano Music — Ah, tu tá falando na época do Maia, o primeiro.

Grandmaster Raphael — É, pô, é mais cedo, poxa.

Mano Music — É, pode ser: 1993?

Grandmaster Raphael — Não, menos, cara: 1990, 1991, pô!

Mano Music — É porque são vários volumes.

Grandmaster Raphael — É, são vários volumes.

Carlos Palombini — E de qual volume você está falando?

Grandmaster Raphael — O um: tem uma importância muito grande nessa virada.9

 

Grandmaster Raphael, Beats, funks e raps, capa, 1993Grandmaster Raphael, Beats, funks e raps, contrcapa, 1993

 

Grandmaster Raphael — E mais recentemente um CD solo do MC Marcinho que é lindo! Todas viraram hit.

 

MC Marcinho, Falando com as estrelas, 2002

Márcio André Nepomuceno Garcia, Falando com as estrelas, 2002, com 14 faixas: 1. “Funk da antiga”, 2. “Zona Oeste” (com o MC Bob Rum), 3. “Falando com as estrelas”, 4. “Sentimentos”, 5. “Quero seu amor” (com Michelle), 6. “Catucá”, 7. “Glamurosa”, 8. “Preciso te amar”, 9. “Sonhos”, 10. “Por você”, 11. “Vem comigo”, 12. “Festa dos MCs”, 13. “Amor eterno” e 14. “Cem por cento funk”.

 

Mano Music — O disco todo, todas viraram.

Grandmaster Raphael — Tem aquela do Bob Rum, “Zona Oeste”.

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Mano Music — É histórico, esse disco é histórico!

Grandmaster Raphael — Esse disco foi muito bem feito.

Jones MFJay — Foi o pika, foi o pika, mas tu que produziu esse CD?

Grandmaster Raphael — Fui eu que produzi pro Marcinho.

Jones MFJay — Pra mim tinha sido o Marlboro.

Grandmaster Raphael — Mas já fiz mais de cem, é complicado!

Carlos Palombini — Gosto muito da sua produção para aquela que Sabrina canta, “Tique-taque”.10

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Grandmaster Raphael — É legal pra caramba, é legal pra caramba, mais recente, bem recente, isso tem dois anos no máximo.

Carlos Palombini — É mais novo que o CD do Marcinho?

Grandmaster Raphael — Bem mais!

Carlos Palombini — O CD do Marcinho é de quando?

Grandmaster Raphael — Esse CD do Marcinho deve ser de 1990 e alguma coisa. Ou 2000?

Mano Music — Acho que 2000 e pouquinho.

Carlos Palombini — Como é o nome desse CD?

Grandmaster Raphael — Puta, agora tu me pegou!

Mano Music — Foi na época daquele segundo estouro do funk.

Grandmaster Raphael — É 2001?

Mano Music — Era Tigrão…

Grandmaster Raphael — Não, aí já é 1990 e alguma coisa.

Mano Music — Não, não é não!

Grandmaster Raphael — É, pô!

Mano Music — É anos 2000.

Carlos Palombini — Tigrão é 2001.

Mano Music — É, deve ser por aí, cara.11

Grandmaster Raphael — Ah, então é isso. Eu não sei, o do Marcinho, eu não sei. Foi um CD muito maneiro esse, mas fica difícil porque é trabalho diário. A gente faz isso há muitos anos.

Carlos Palombini — Como é o seu trabalho de produção?

Grandmaster Raphael — Hoje em dia eu diminuí um pouco o trabalho de produção dentro de estúdio porque eu tô muito ativo na noite, tô tocando muito, e tenho também meu trabalho com a MC Sabrina, que me toma tempo pra caramba, e ainda dou aula no Afroreggae. Meu trabalho aqui diminuiu um pouco, mas continuo fazendo. Só que hoje não tem mais aquela coisa de antigamente, quando a gente já fazia aquilo planejado pra virar um vinil de oito ou doze faixas. O que dava prazer era o vinil. Depois a gente continuou a fazer porque o CD ainda tinha um pouco disso. Só que agora não! Hoje você não faz um CD fechado com tantas faixas pra vender. Vinil muito menos. Você faz uma faixa, distribui na Internet, dá pros amigos tocar nas outras equipes, nas outras boates. É um negócio mais ou menos assim. Acho que por isso diminuí.

Jones MFJay — A gente ficou meio pulverizado, não é? O pessoal ficou meio pulverizado.

Grandmaster Raphael — É, acho que até por isso diminuí um pouco. Antes não: se vou fazer um disco tal, assim, vou fazer outro disco, tem disco pra fazer do MC tal, tem o disco solo do MC fulano. O trabalho de estúdio é diário.

Jones MFJay — Hoje a coisa tá muito mais volátil, muita atividade.

Grandmaster Raphael — É, você fez uma coisa rápida, bota aí no Soundcloud: já foi. Antigamente não era isso.

Carlos Palombini — Como é seu trabalho no Afroreggae?

Grandmaster Raphael — Dou aula pra DJs: aula de MPC e software de produção de batida, essa coisa toda.

Carlos Palombini — Como o equipamento do funk evoluiu desde o tempo em que os DJs tocavam com dois toca-discos?

Grandmaster Raphael — O trabalho do DJ ficou mais fácil. Pelo menos a parte técnica tornou mais fácil atuar na profissão. Em contrapartida, pela facilidade, a rapaziada hoje não é tão preparada quanto a de antigamente porque se você tem o software, se tem o equipamento que faz aquele trabalho com facilidade, não precisa fazer.

Jones MFJay — É como os carros de fórmula um.

Grandmaster Raphael — Você não precisa saber a origem do funcionamento.

Jones MFJay — Mas o cara opera. O cara não é piloto, o cara é operador de uma máquina totalmente computadorizada.

Grandmaster Raphael — Isso diminuiu a habilidade do DJ, a criatividade.

Mano Music — E a facilidade também de ter o equipamento.

Grandmaster Raphael — É lógico!

Mano Music — Antigamente era muito difícil.

Grandmaster Raphael — A rapaziada de antigamente tá mais capacitada. Por isso, porque pegou aquela parte que tinha de ter braço mesmo pra tocar. Os recursos eram quase nenhum. Hoje, pelo amor de deus!

Carlos Palombini — Como você vê o funk hoje?

Grandmaster Raphael — Ah, pô, eu gosto pra caramba porque virou um movimento. Claro, tem muita gente ainda que não dá valor, ainda tem muito problema, ainda é muito discriminado, mas nem se compara com as décadas de 1980 e 1990, quando a polícia chegava e fechava e não dava satisfação. O baile todo legalizado — “ah não quero que tenha e não tem acabou!” — e tu vai embora pra casa contando com aquele dinheiro que ia receber e não recebe. Hoje não! O funk tá na televisão, tá no país todo, um movimento realmente sólido. Mas, é claro, ainda tem muita coisa pra ser resolvida, muita coisa que poderia melhorar.

Carlos Palombini — Quais seriam os problemas?

Grandmaster Raphael — Primeiro, em termos de organização: ainda é muito informal. Tudo! O negócio do funk é feito com muita informalidade no trato com o contratante — o contratante com o DJ ou com o MC ou com as equipes de som. São coisas muito informais. A gente poderia ser mais organizado em todos os níveis: produção musical, direito autoral, Ecad. Em todos, ainda tem muita informalidade. Seria melhor pra todo o mundo, mas é uma coisa que, se acontecer, ainda falta muito, não vejo isso pra agora, não consigo enxergar.

Mano Music — E tá arriscando, o dia que acontecer, não funcionar.

Grandmaster Raphael — É, ainda tem isso.

Jones MFJay — É, tem isso também. É muito amadorístico.

Grandmaster Raphael — Exatamente.

Mano Music — O dia que for regulamentar isso, não sei. É muito longe de mão, não tem mais mão. O garoto bota lá o negócio no baile da favela, bota um laptop, toca pra não sei quantas mil pessoas, e daqui a pouco saem quatro, cinco músicas. Do nada! Pro senhor ver, hoje não se pega uma música — essa música que vou tocar na rádio — que vai virar. Não vira!

Jones MFJay — Não vira. Tem que vir da favela.

Mano Music — Vira na favela.

Jones MFJay — Tem que vir da favela.

 

Grandmaster Raphael em Paris, 1 de outubro, 2005, foto de Vincent Rosenblatt

Grandmaster Raphael toca ao ar livre em Paris no Ano do Brasil na França, sábado, 1º de outubro de 2005, foto de Vincent Rosenblatt

 


1 Policial Civil e produtor de funk, um dos responsáveis pelo baile charme do viaduto de Madureira, o Dutão. A sigla “MFJay”, de “Motha Fucka Jay”, foi-lhe atribuída por MV Bill com referência à dupla condição de policial e funkeiro, conforme explicação do próprio Jones (SMS de 27 de janeiro de 2014).

2 De acordo com o Facebook da série, Eu Amo Baile Funk já teve mais de oitenta edições desde a reabertura do Circo Voador em 2004 bem como eventos únicos no MAM, na Marina da Glória, no Jockey Club Brasileiro, no Vivo Rio e ainda em Londres, Paris e Amsterdã. Seu público total é estimado em mais de trezentas mil pessoas.

3 Matheus Aragão, organizador do Eu Amo Baile Funk e, anualmente, do Rio Parada Funk.

4 Grandmaster Raphael fornece detalhes adicionais sobre sua carreira numa entrevista concedida por ocasião de sua passagem por João Monlevade ao final de 2011. Ela foi publicada no blog Cenários em 20 de janeiro de 2012 e republicada no Funk de Raiz, sem data.

5 Angelo Raphael nasceu em 29 de maio de 1964, segundo seu Facebook.

6 “Mano Music. Ele tem uma fábrica de CDs. Figura importante no funk, que quase nunca utilizou as grandes gravadoras para prensar os seus CDs. A quem recorriam? Ao Mano!” (Jones MFJay em SMS de 14 de janeiro de 2014). O selo Mano Record’s prensou ainda LPs nos anos 1990. A Manomusic Produções Fonográficas fica em Oswaldo Cruz, não longe da Vila Valqueire.

7 MC Sabrina, CD Promocional, produção musical do DJ Grandmaster Raphael, janeiro de 2014, com as faixas “Sofrimento acabou (vs retrô)”, “Aquecimento do passinho”, “Diz” e “Mais amor do que amizade”.

8 Enquanto Marlboro trabalhava com uma Boss DR-110 Dr. Rhythm Graphic, de 1983, a última bateria eletrônica da Roland a utilizar síntese analógica, Grandmaster utilizava uma Roland R-8 Human Rhythm Composer, de 1989, uma das melhores baterias eletrônicas já construídas.

Boss DR-110 Dr. Rhythm Graphic

Roland R-8 Human Rhythm Composer

9 Sobre a importância do “Rap do Pirão”, ver entrevista de 2011, no canal Viva Favela.

10 “Tic tac” foi lançada em dezembro de 2010.

11 O Bonde do Tigrão apareceu na coletânea Furacão 2000: Tornado muito nervoso 2 (House Funk Produções Artísticas 110204), produzida por Dennis DJ, no ano 2000; em 2001 lançou o álbum Bonde do Tigrão pela Sony (Columbia 2-495956), com produção musical de Victor Júnior, Mãozinha DJ e Umberto Tavares.

 

FOTO: Montagem das caixas de som da equipe Chatubão Digital no Campo da Ordem, Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Rio de Janeiro, sexta-feira, 2 de abril de 2010. © Vincent Rosenblatt / Agência Olhares