Vida bandida na Chatuba

Acompanhado pelo DJ Byano e o Chatubão Digital, o MC Smith canta “Vida bandida” no baile da Chatuba em 2009, homenageando o trigésimo terceiro aniversário de Fabiano Atanazio da Silva.

Fabiano Atanazio da Silva — o FB — completa 33 anos na quarta-feira, 22 de julho de 2009. Na madrugada de domingo, no baile da Chatuba, o MC Smith sobe ao palco para, acompanhado pelo DJ Byano e a equipe do Chatubão Digital, homenagear o mecenas do funk. O tributo inclui uma performance de “Vida bandida” que se tornará lendária.

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Byano! tu não lançou porque tu esperou eu chegar.
Já tomam’ o Chapadão, já tomam’ o Jorge Turco,
breve, breve vamo’ p’a Mineira, breve, breve vam’ p’o Acari,
breve, breve, tá, nós vamo’ vermelha’ a porra toda, meu irmão!

Quem é Comando Vermelho levanta a mão e grita “eu”!

(Mais uma do Byano)

Partia p’os baile’ de briga, pegava carona e roupa emprestada,
era um dos mais falado’, era brabo na porrada.
Mas ninguém vive de fama, queria grana, queria poder,
se envolveu no artigo 12 pela facção CV.

(FB, se liga só)

Mas olha ele — quem diria? —, ninguém lhe dava nada,
tá fortão na hierarquia, abaland’ a mulherada.
É o rasante do falcão em cima da R1,
a grossura do cordão tá causando zunzunzum.

Mas é várias mulher, vários fuzil a sua disposição,
o batalhão da área comendo na sua mão.
Ele tem disposição para o mal e para o bem,
mesmo rosto que faz rir é o que faz chorar também.

Nossa vida é bandida e o nosso jogo é bruto,
hoje somos festa, amanhã seremos luto.
Caveirão não me assusta, nós não foge do conflito,
nós também somos blindado’ no sangue de Jesus Cristo.

Nossa vida é bandida e o nosso jogo é bruto,
hoje somos festa, amanhã seremos luto.
Caveirão não me assusta, nós não foge do conflito,
nós também somos blindado’…

É que a BMW voa, nós mantemo’ o pé no chão,
o nosso bonde zoa, nós só chega de patrão.
Só desfolha, só pacão, as piranha’ passa’ mal,
nós só anda trepadão de Glock, rajada, G3, Parafal.

Nós estamos no problema, nós não rende pra playboy,
nós não podemos ir na Zona Sul, a Zona Sul que vem até nós.
Estampado no jornal, toda hora, todo instante,
patricinha sobe o morro só p’a da’ p’a traficante.

Nós não somo’ embriagado’ nem em fama e nem sucesso
porque dentro da cadeia todos somos de processo.
Tem que ter sabedoria pra poder viver no crime
porque bandido burro morre no final do filme.

Nossa vida é bandida e o nosso jogo é bruto,
hoje somos festa, amanhã seremos luto.
Caveirão não me assusta, nós não foge do conflito,
nós também somos blindado’ no sangue!

Smith maneja as inflexões sinuosas e as divisões peritas da fala carioca com habilidade comparável à de Carmen Miranda nos anos 1930, mas a sonoridade franca da voz proibida o aproxima dos primeiros astros da fonografia mecânica, como o palhaço Eduardo das Neves. Elizabeth Travassos a escuta na tradição do palhaço da folia de Reis, e sugere a analogia da posição ambivalente deste, entre o terno e o público, com a do MC, entre o Comando e a comunidade.1 Para Paul Sneed, de fato, o papel do MC no proibidão é realizar a mediação entre ambos.2 “Sustento que o legado mais importante do CV tenha sido um conjunto de símbolos, discursos e as táticas que o grupo produziu”, argumenta Ben Penglase.3 A performance de Smith resume esse legado.

O MC chega como da guerra, e o que Byano não lançou pode ser tanto a música quanto uma granada. Eufórico de tantas vitórias, pronto para tantas mais, ele compartilha sua identidade de guerreiro com o DJ antes de estendê-la ao público, num convite. A estrofe inicial narra os primeiros passos de uma carreira no tráfico que se ensaia nos bailes de briga dos anos 1990. FB teria à época entre 13 e 23 anos. E é a ele diretamente que o MC se dirige então: o soldado de ontem tornou-se o patrão de hoje, na Chatuba, de corpo presente. “Vida bandida” é uma peça de circunstância e um hino.

O refrão emerge na passagem da declamação ao canto. “Ao entreter, as brincadeiras do bastião articulam temas de extrema gravidade”, afirma Suzel Ana Reily.4 Os quatro versos épicos exprimem a tragédia anunciada da morte precoce, e o heroísmo de resistir à violência policial. Se essa tragédia é a de uma parcela imensa dos jovens pobres, o heroísmo é peculiar ao epicentro cultural da Penha.

Smith retorna à fala ritmada para fazer o elogio da humildade, no qual a ética do Comando e a ética da favela se confundem. Não por acaso, ele alude à solidariedade no cárcere, origem histórica da Falange Vermelha, antes de se deter abruptamente na palavra “sangue”: poder vermelho que circula no corpo de Cristo, poder vermelho que circula no corpo de Fabiano Atanazio. É “o Poder”, no qual — pela intercessão de Byano e Smith — a Chatuba, a Vila Cruzeiro e a Penha comungam.

Orgulho e humildade descrevem bem o trabalho de Byano aqui, um DJ excepcional numa performance excepcionalmente discreta, mas eficientíssima. Ele pontua a declamação de Smith como um cravo de recitativo, reverbera o aparte à plateia, e apõe a assinatura garrafal da equipe no espaço imediatamente anterior ao refrão memorável. Na repetição, solta o Tamborzão e apologiza: “o melhor DJ da cidade, hãhahahahac!”

A performance de Smith, a letra de “Vida bandida”, a improvisação de Byano, o glamour do baile da Chatuba e a presença pura e simples de Fabiano Atanazio da Silva fazem dessa gravação uma das mais significativas do Funk Proibido. O MC “estourado” do Rio, em ascensão fulgurante, estrelaria depois o documentário Grosso calibre. Mas o apogeu de sua arte seria interrompido pelos episódios de extorsão policial e prisão ilegal no ano seguinte. Smith cantou “Vida bandida” diante de outros chefes em outras ocasiões no mesmo ano: para o Cabral, no Andaraí; para o Macarrão, no Antares; para o Paizão, no DVD da Furacão 2000. E, depois do cárcere, no Cabral em São Paulo, em ritmo de MPB. Ali, com humor autocrítico, mas sem heroísmo, ele começaria assim: “quando eu crescer eu vou virar o MC Smith, igual eu nessa música aqui, ó”. Sua arte se tornara mais uma vítima da última manifestação local da Guerra Global às Drogas: a pacificação.

 

Clipes

MC Smith, “Vida bandida” no Andaraí, 2009

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MC Smith, “Vida bandida” no Antares, 2009 

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MC Smith, “Vida sofrida” no DVD da Furacão Tsunami IV, 2009

 

MC Smith, “Vida bandida”, no documentário de Guilherme Arruda, Ludmila Curi e Thiago Vieira, Grosso calibre, Oxfam’s Shooting Poverty competition e Drewstone Productions, 2010

 

MC Smith, “Vida sofrida” no Cabral, São Paulo, 2011

 

 


1 Elizabeth Travassos, comunicação verbal nos Seminários de Música Brasileira Urbana e Rural, Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), 16 de novembro de 2011. A Penha teve efetivamente um representante do palhaço da folia de Reis, ou bastião, em José Fernandes dos Santos, o palhaço Gigante, que encerrou carreira na Mangueira.

Sobre o papel do palhaço ou bastião na folia de Reis, ver Suzel Ana Reily, Voices of the Magi: Enchanted Journeys in Southeast Brazil, Chicago e Londres, The University of Chicago Press, 2003. Sobre o palhaço Gigante, ver Daniel Bitter, “A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas folias de Reis”, tese de doutorado, programa de pós-graduação em Sociologia e Antropologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2008, <www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=133763>;  Ausonia Bernardes Monteiro, “Um palhaço Gigante”, Anais do Quinto Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas, Belo Horizonte, 2008, <www.portalabrace.org/vcongresso/textosestudosperformance.html>; Rogério Lopes da Silva Paulino, “As máscaras dos palhaços da folia de Reis: imagens e ações do mal no catolicismo popular brasileiro”, Anais da Vigésima Sexta Reunião da Associação Brasileira de Antropologia, Porto Seguro, 2008, <www.abant.org.br/conteudo/ANAIS/CD_Virtual_26_RBA/grupos_de_trabalho/apresentacoes/29antropologiadomal.html>.

2 Paul Sneed, “Machine Gun Voices: Bandits, Favelas and Utopia in Brazilian Funk”, tese de doutorado, Madison, University of Wisconsin-Madison, departamento de Espanhol e Português, 2003, <beatdiaspora.blogspot.com/2006/10/machine-gun-voices.html>.

3 Ben Penglase, “The Bastard Child of the Dictatorship: the Comando Vermelho and the Birth of ‘Narco-culture’ in Rio de Janeiro”, Luso-Brazilian Review 45 (1): 118–45, 2008.

4 Suzel Ana Reily, op. cit., p. 135.

 

FOTO: Baile do clube Boqueirão, com a equipe Furacão Tsunami, Rio de Janeiro 2005. © Vincent Rosenblatt / Agência Olhares